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7 dez

O Davi de Michelangelo

A escultura

A obra de Michelangelo Buonarroti (1475-1564), artista toscano protagonista de um dos períodos artísticos mais extraordinários da humanidade, o Renascimento, é universalmente conhecida. E podemos dizer que uma das obras de arte mais impressionantes de sua longa produção artística (Michelangelo viveu 89 anos!) é sem duvida a escultura do Davi, conservada na Galeria da Academia em Florença.

O artista quando finalizou a obra tinha apenas 29 anos (realizada entre os anos de 1501 e 1504). O bloco de mármore usado por Michelangelo tinha sido abandonado por décadas no pátio interno da Instituição da “Opera del Duomo” que encomendara a obra ao artista. Sabemos que neste bloco dois artistas já haviam tentado esculpir o mármore, mas abandonaram o bloco visto a fragilidade e pouca qualidade do mesmo.

O projeto representa o personagem bíblico Davi (ou David como dizem os italianos) do Antigo Testamento, durante o episódio do combate com o gigante Golias. Michelangelo começa a trabalhar na escultura em setembro de 1501, após ter recebido a encomenda da parte da “Opera del Duomo” no dia 16 de agosto de 1501, um dia depois da festa da Assunção da Virgem Maria.

A variedade de tratamento dada à superfície do Davi por Michelangelo antecipa a ampla e expressiva técnica do artista. Não encontramos na obra traços do famoso “non finito” de Michelangelo que caracteriza algumas esculturas incompletas da maturidade do artista. A escultura nos mostra o profundo conhecimento de Michelangelo da anatomia humana, e traz à tona um simbolismo religioso, político, estético e de beleza inigualáveis.

Davi de Michelangelo, detalhe. Foto: pixabay.

Davi de Michelangelo, detalhe. Foto: pixabay.

Na posição do Davi que segura na mão esquerda a funda, com a qual lança a pedra na testa de Golias, bem como no tronco na parte inferior da escultura, o acabamento do mármore recebe um efeito rústico, onde seria aplicado o douramento, cujos vestígios de preparação foram identificados.

 

A colocação na cidade

Inicialmente a escultura fazia parte de um projeto para adornar a parte exterior da Catedral Santa Maria Del Fiore, num ponto localizado na base dos contrafortes laterais (sobre os “sproni” entre as tribunas laterais da abside). A posição definitiva da escultura foi definida na primavera de 1504, por uma comissão representada pelos artistas mais renomados da época, entre eles: Antonio de Sangallo, Il Cronaca, Lorenzo di Credi, Francesco Granacci, Leonardo da Vinci, Sandro Botticelli, Giuliano da Sangallo, Cosimo Rosselli, Piero di Cosimo, Filippino Lippi, Andrea della Robbia, Pietro Perugino, entre outros.  Rafael Sanzio, apesar de estar em Florença nessa época, não participou desta comissão, provavelmente porque ainda era muito jovem e porque o seu talento ainda não era conhecido no cenário artístico florentino.

Cosimo Rosseli, Botticelli permanecem com a ideia de manter a escultura nas proximidades do Duomo.  Botticelli diz que o “Gigante de Michelangelo” ficaria muito bem nas escadas em frente á catedral, na direção da casa dos Lorini (na parte norte do Duomo), enquanto os demais concordavam pela colocação na Praça da Signoria. Para a localização na praça foram apresentadas duas propostas: a primeira opção era a céu aberto, no chamado “Arengario” aos pés do Palácio Vecchio, ao lado da entrada principal (local onde efetivamente foi colocado) e a segunda no Cortile di Michelozzo (pátio do Palazzo Vecchio), onde estava o Davi de bronze de Donatello.

“Arengario” aos pés do Palácio Vecchio, ao lado da entrada principal (local onde efetivamente o Davi foi colocado e onde hoje encontra-se sua réplica). Fonte: pixabay

 

Giuliano da Sangallo, disse que concordava que o Davi fosse colocado nas proximidades do Duomo, se o mármore o qual ele foi esculpido não fosse imperfeito. Giuliano era arquiteto e sabia dos danos que a exposição às chuvas poderia causar.  Giuliano disse: “se la mettono all’acqua verá mancho presto et vuole stare coperta”. E assim nasce a proposta de colocar o Davi, por motivos de conservação num local coberto, ou seja, na Loggia dei Lanzi.  Giuliano sugere que ela seja colocada em um local dentro da loggia, onde seria possível girar em torno, para melhor apreciação da obra, ou ainda dentro de um nicho preto como se fosse uma capelinha, encostada na parede.

Loggia dei Lanzi. Foto da autora.

O parecer de Giuliano demonstrava a sua sabedoria e assim muitos outros participantes da comissão, inclusive Leonardo da Vinci, apoiaram a proposta do arquiteto. Leonardo dice: “Io confermo che stia nella loggia dove à detto Giuliano”. Porém, outros membros da comissão, ainda queriam o Davi no “arengario” do Palazzo Vecchio. Os pintores Piero di Cosimo, Filipino Lippi e o ourives Salvestro del Lavacchio sustentaram suas propostas pessoais, mas concordavam que a comissão também deveria escutar Michelangelo, pois ele, melhor do que ninguém, saberia dizer o melhor local para a sua obra.

O debate não foi concluído com uma solução:

  • 13 indicações para a colocação dentro ou fora do Palazzo della Signoria (atual Palazzo Vecchio);
  • 13 indicações para a Loggia dei Lanzi, dos quais 08 debaixo do arco central;
  • 06 indicações para a parte externa da catedral;
  • 03 a favor que a escolha deveria ser feita por Michelangelo.

Muitos historiadores acreditam que a decisão de colocar o Davi de Michelangelo no local da escultura de “Judith e Holofernes” de Donatello já tinha sido tomada a nível governativo. Assim a comissão formada por grandes artistas da época tinha a função meramente justificativa ex post, ou seja, uma forma de obter um aval mais ou menos manipulado da parte dos maiores especialistas da época.

O transporte da escultura foi muito trabalhoso e durou quase um mês, tendo sido necessário mais de quarenta homens e uma engenhosa máquina para transportá-la. A inauguração se deu no dia 8 de setembro de 1504, dia da festa religiosa da Natividade da Virgem Maria e ali ficou até a segunda metade do século XIX, quando foi transportada para a atual Galeria da Academia.

Modelo do carro que transportou o Davi de Michelangelo em 1873 da Praça da Signoria até a Galeria da Academia. Fonte: https://www.casabuonarroti.it/

Simbologia

O Davi de Michelangelo que representa o herói bíblico passa a ter um significado político, da liberdade Republicana florentina, uma vez que vem colocado em Praça Pública, diante ao Palácio do Governo. Símbolo de justiça, o Davi é um dos temas mais representados na arte florentina gótica e renascentista e tem uma conotação de “ícone cívico da defesa da pátria e de ajuda divina contra o inimigo”.

Depois de mais de 500 anos de sua realização, o Davi de Michelangelo continua a impressionar pela sua beleza estética, técnica e extraordinária capacidade de emocionar, para quem o deslumbra pela primeira vez, mas para quem o vê praticamente todos os dias, como nós guias de Florença, nas nossas visitas guiadas à Galeria! Venha descobrir todos os segredos desta maravilhosa escultura e das demais obras belíssimas da Galleria dell’Accademia com o Tour na Toscana!

 

Fonte imagem capa: pixabay.

Luciana Masiero
Luciana Masiero

Mineira, arquiteta de formação e guia oficial é apaixonada pela cultura e costumes locais. Adora levar sua experiência em arquitetura e gastronomia aos tours.

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