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7 nov

Le Stinche, a antiga prisão de Florença

Há 720 anos, iniciou a construção do cárcere delle Stinche, a antiga prisão da cidade de Florença, situada na Via Ghibellina, no local onde surge atualmente o  Teatro Verdi.

Dados históricos

Em 7 de novembro de 1299, o conselho “dei Cento”, órgão deliberativo mais importante da cidade, aprovou uma verba para a construção do “novus carcer” (novo cárcere) de Florença. A prisão deveria ser construída na paróquia de San Simone, em terras pertencentes à nobre família Uberti e confiscadas em 1268 quando o lado ghibelino (apoiadores do imperador) foi banido da cidade e se estabeleceu um regime firmemente guelfo (apoiadores do papa).

O edifício concluído em 1301 foi a primeira prisão construída propositadamente numa cidade européia. A inovação foi representada pelo desejo de concentrar em um único espaço os presos que se encontravam espalhados em vários lugares até então.

O cárcere de Stinche

A prisão formava uma grande ilha trapezoidal, pois era circundada por uma fossa, como os antigos castelos medievais. Possuia celas e salas fechadas dentro de um muro alto (cerca de 18m) feito de pedra forte, além de uma entrada com uma porta de serviço que dava para a Via Ghibellina. A porta de entrada levava diretamente à habitação e escritórios dos superintendentes, a torre de vigia e a um armazém.

A parede externa do lado leste, fazia parte da muralha que circundava Florença em 1078. Era a parte mais alta e mais grossa da muralha externa da prisão, porque ela já existia e foi aproveitada pelos florentinos na construção do cárcere. Nas extremidades da muralha da prisão, bem no alto, se via dois escudos de pedra: uma com a cruz do povo de Florença e outra que representava a República Florentina, com o Giglio.

A porta permitia a passagem de um carrinho, que através de uma rampa garantia o acesso aos armazéns, enquanto a outra passagem levava ao pátio interno. Após o pátio havia outro alojamento para os guardas. As enfermarias dos prisioneiros e uma pequena capela davam para o pátio. Por segurança, as enfermarias foram separadas das paredes externas por uma passarela acessível apenas aos guardas. Cada ala continha bancos de dormir, uma latrina e os espaços que serviam de armazém: uma ou mais janelas davam para o pátio.

O grande e sombrio edifício construído ao lado da igreja de San Simone era comumente chamado de “Stinche” desde 1304, quando ali foram presos os soldados, após a captura do castelo homônimo em Val di Greve, pertencente à família Cavalcanti, então inimiga da facção negra no governo de Florença: “stinche” significava “cristas”, e aludia com toda a probabilidade à colocação da fortaleza em um penhasco. Na verdade, a prisão lembrava a forma de um castelo devido aos seus altos muros.

O nome manteve ao longo do tempo seu significado anti-ghibelino, e o cárcere “Stinche” ocupou por mais de cinco séculos a paisagem urbana da área aonde foi construído, sem sofrer modificações específicas.

O inglês Howard, que no final do século XVIII visitou os hospitais e as prisões europeias, passando por Florença fez as seguintes anotações referente a Le Stinche:

  • As muralhas do cárcere eram muito altas e muito próximas das celas, o que impedia a circulação do ar;
  • O local era ordenado e as celas espaçosas;
  • Total separação entre homens e mulheres. Homens na parte térrea e mulheres na parte mais alta do edífcio;
  • Enfermarias em boa condições;
  • Presença de um grande pátio;
  • Os prioneiros não tinham ferros;
  • Alimentação baseada em pão de boa qualidade.

 

Prisões a pagamento

Na prisões florentinas, era comum que o prisioneiro pagasse uma libra por dia de detenção para contribuir com as despesas. Tal pagamento, consentia que os prisioneiros das classes mais altas, conseguissem um tratamento melhor, através do pagamento de cifras adequadas. Os prisioneiros que não tinham como efetuar o pagamento, recebiam um tratamento duríssimo.

Os prisioneiros

Os prisioneiros do cárcere Le Stinche, geralmente eram aqueles condenados por crimes políticos e prisioneiros de guerra. Em seguida, foi lar também daqueles que não conseguiam pagar seus débitos e os falidos. Um prisioneiro ilustre foi Nicolau Maquiavel, implicado na conspiração dos Orti Oricellari. Outro ilustre prisioneiro foi o historiador Giovanni Villani, envolvido na crise financeira dos bancos dos Bardi e dos Peruzzi.

Sabemos que no ano de 1341, foi hospede no cárcere Stinche um senhor chamado Giovanni di Durante. Ele era um produtor/comerciante de vinho que foi condenado por débitos tributários.

Os guardas que tomavam conta dos prisioneiros, eram cidadãos do bem, guelfos com certeza, os quais assumiam o cargo através de sorteios. Existia também o guardião que era o chefe dos guardas e responsável de guardar as esmolas que eram dadas aos presos.

O lavatoio

Mapa de Buonsignori, 1584

Se observamos a foto, podemos perceber uma construção mais baixa no lado sul do cárcere. Trata-se de um lavatoio, ou seja, uma espécie de lavanderia pública construída em 1428 pela poderosa Arte della lana (corporação dos trabalhadores da lã). Em recordação deste lavatoio, uma das ruas próximas a antiga prisão, ainda se chama “Via dei Lavatoi”.

As lavanderias eram usadas pelos tintureiros florentinos, reconhecidos pela excelência de sua produção, para lavar tecidos, principalmente nos meses de inverno, quando o rio Arno era frequentemente turvo ou cheio. Haviam vários tanques que se estendiam por toda a estrada. Quando não eram usados pelos tintureiros, as mulheres aproveitavam  para lavar roupas.

No mapa de Buonsignori (1584), podemos ver claramente o grande tanque apoiado em um lado da prisão de Stinche. O tanque também tinha uma fonte de tamanho médio com uma cabeça de leão que derramava água da boca, como evidenciado por uma gravura de Carlo Lasinio.

O tabernáculo delle Stinche

Tabernáculo delle Stinche, Giovanni da San Giovanni

Em 1616 foi encomendado ao pintor Giovanni da San Giovanni um afresco para fazer parte da grande série de tabernáculos colocados na Via dei Malcontenti (descontentes), ruas por onde passavam os prisioneiros e os condenados à pena de morte. Os tabernáculos tinham a tarefa de incentivar os pecadores com suas imagens sagradas e para a redenção dos pecados.

O tabernáculo representa o senador Girolamo Novelli acompanhado por dois magistrados, que na presença de Jesus Cristo, doam dinheiro a um prisioneiro, cumprindo assim uma das sete obras de Misericórdia. De fato, era tarefa dos cidadãos ajudar os prisioneiros, com alimentos e outras necessidades, já que eles não eram mantidos com dinheiro público como hoje.

A demolição

Todo o complexo foi demolido em 1833. Em 1854, o Teatro Verdi foi construído em seu lugar, utilizando os restos da construção da antiga prisão.

Fonte do Agnellino, Florença

A pequena fonte do Agnellino que ainda existe na esquina da Via dei Lavatoi com a Via delle Stinche, foi construída na saída da antiga fonte.

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Marise Nakagawa
Marise Nakagawa

Adora descobrir a cada dia um pedacinho “in più” da Toscana. Guia oficial, adotou a Itália como pátria e viveu mais de 10 anos no Japão, mas seu maior orgulho é ser brasileira.

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