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4 abr

Florença antes da cúpula de Brunelleschi

No dia 19 de agosto de 1418 em Florença foi lançado, pela Opera del Duomo (Instituição fundada pela República Florentina em 1296, para dirigir, controlar e tutelar a construção da catedral e de seus monumentos) um concurso que desse solução à cobertura do vão da Catedral Santa Maria del Fiore, juntamente com todo o equipamento, máquinas e engrenagens necessárias para o movimento dos materiais de construção para a realização da cúpula da Catedral.

O Florim

A data para a entrega das propostas era no final do mês de setembro do mesmo ano e o prêmio para o “projetista” vencedor seria de 200 florins de ouro (Florim: em italiano “fiorino d’oro”, moeda florentina existente desde a Florença medieval, que pesava 3,5 gramas de ouro e tinha cunhado de um lado, a Flor de Lis, símbolo da cidade e do outro São João Batista, seu padroeiro).

Fiorino d’oro. Fonte imagem: wikipedia.

Este valor representava uma quantia muito mais alta
do que um artesão experiente poderia ganhar em dois anos de trabalho, e
claramente o concurso atraiu muita gente em toda a Toscana. O prazo para a
entrega das propostas era de seis semanas, e podiam ser apresentados sobre
forma de maquetes, projetos, croquis e desenhos, bem como sugerir uma ou mais
soluções para a construção da futura cúpula.

As propostas deveriam resolver uma série de problemas como a construção de uma estrutura provisória de madeira capaz de sustentar a alvenaria e o transporte, a uma altura considerável, dos pesados blocos de mármore e arenito.

O canteiro de obras

Imaginem Florença antes da cúpola de Brunelleschi: a Praça do Duomo e o seu entorno, naquele período era um verdadeiro canteiro de obras, onde trabalhavam artesãos, pedreiros, ferreiros e carroceiros (com seus carros de boi pela estrada), cordai (quem fabrica ou vende cordas), cozinheiros e até quem vendia vinho durante a pausa dos operários.

A praça era um frenesi constante de homens que transportavem sacos de areia e calcina (tipo de argamassa feita com cal, água, areia, aditivos), ou que ficavam encima de andaimes e platafomas de madeira sobre as coberturas das casas vizinhas.

O canteiro de obras na Idade Média.
Fonte imagem: http://ilmondodiaura.altervista.org

“Formella” do campanario de Giotto: ” A arte de edificar”
Fonte imagem: http://www.istitutoleopardi.lecco.it

Pensem em uma Florença com um aspecto ainda rural, aquela do início de 1400. Dentro de suas muralhas era comum encontrar campos de trigo, hortos e vinhedos, ou mesmo rebanhos de ovelhas pelas ruas que levavam até ao mercado nas proximidades do Batistério.

Palazzo Vecchio e Batistério de Florença em um codigo manuscrito (Biadaiolo)
Fonte imagem: https://operaduomo.firenze.it

Mas Florença neste período era considerada um grande centro de comércio e sua nova catedral deveria refletir a imagem deste importante e potente centro mercantil.

O comércio da lã

A cidade tinha se transformado em um dos
centros mais prósperos da Europa, sendo grande parte de sua fortuna proveniente
da indústria de lã, iniciada pelos monges da Ordem dos Humiliati (O.Hum ), que
chegam à cidade em 1239.

Os fardos de lã inglesa eram transportados até Florença pelos monastérios de Costwold para serem lavados no rio Arno e depois cardados, fiados, tecidos em teares de madeira para depois serem tingidos com cores magníficas: o vermelhão, produzido a partir de cinábrio (pigmento opaco alaranjado – sulfeto mercúrico) das margens do Mar Vermelho, ou o amarelo brilhante feito a partir de flores de açafrão coletadas nos campos de San Gimignano. O tecido produzido era assim o mais refinado e procurado por toda a Europa e também o mais caro.

“Formella” do campanario de Giotto: ” A arte de tecer”
Fonte imagem: http://www.istitutoleopardi.lecco.it

Arte da lã : aspectos da vida cotidiana.
Fonte imagem: wikipedia.

Brasao da Arte da la: Cordeiro com Estandarte e aureola. Robbiana.
Fonte imagem: wikipedia

O concurso da cúpola

Neste contexto, o concurso lançado pela Opera del
Duomo, tinha como objetivo principal resolver o grande problema da cúpula da
Catedral de Florença, que permanecia ainda sem uma cobertura.

Para tal foram apresentadas
aproximadamente 12 soluções para serem submetidas à avaliação, sendo inclusive
algumas delas, provenientes de outras cidades toscanas, como Pisa e Siena.

Entre todos os projetos apresentados somente um oferecia uma solução original e desafiadora para o problema tão discutido sobre a curvatura da cúpula. Este projeto proposto por um personagem cuja formação se baseava na aritmética, na geometria, na ourivesaria e na relojoaria, anos depois, será conhecido como o grande arquiteto da cúpula do Duomo de Florença: Filippo Brunelleschi.

Desenho da cupola de Brunelleschi.
Fonte imagem: https://www.firenze-online.com

Possivel retrato de Filippo Brunelleschi. Masaccio, Capela Brancacci, Florença.
Fonte imagem: wikipedia.

Quer conhecer esta e outras historias incriveis de Florença e da construção da cidade? Venha conosco!

Luciana Masiero
Luciana Masiero

Mineira, arquiteta de formação e guia oficial é apaixonada pela cultura e costumes locais. Adora levar sua experiência em arquitetura e gastronomia aos tours.

Comments:

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    Mônica Muniz de Souza Simas
    abril 4, 2019 at 11:14 pm

    Essa história é incrível! E você nos conta com tal veracidade e leveza que nos transporta no tempo e espaço. Fiquei imaginando as cores e este amarelo de San Gigminano e é tudo surpreendente! Uma delícia “ouvir” tantos detalhes. E Bruneleschi foi um Grande!!! Bjs

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