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15 nov

A terrível inundação de Florença em 1966

O mês de novembro, ápice do outono na Itália, em geral é bastante chuvoso. Historicamente, as piores enchentes em Florença, aconteceram neste período. Destacam-se a de 1333, que destruiu 3 dos 4 pontes que existiam na cidade, a de 1844 e a última em 1966. Imaginem esta cidade que é Patrimônio histórico da Unesco, com seus edifícios e obras sem igual, sendo devastada pela força das águas.

O voluntario Salvatore Franchino desesperado diante do Cristo de Cimabue. Foto: Corrieri.it

Um crucifixo fundamental para a história da arte, pintado por Cimabue no século XIII, preservado em Santa Croce foi destruído e recuperado parcialmente com várias restaurações. Esta obra se tornou o símbolo da destruição ocorrida com esta enchente, e pode ser admirado na sacristia da igreja de Santa Croce. Recentemente também foi restaurada a Última Ceia de Giorgio Vasari, que é exposta no antigo refeitório do convento de Santa Croce.

A belíssima Porta do Paraíso de Lorenzo Ghiberti no Batistério foi atingida pela fúria das águas que chegou arrombar a porta a destacar 6 painéis, que só não se perderam na enchente pela existêportão para evitar que as pessoas tocassem a porta. A corporação japonesa Sun Motoyama financiou o restauro e a réplica. O original da porta pode ser visto no Grande Museu del Duomo.

Como ocorreu a enchente

Na noite entre 3 e 4 de novembro de 1966, Florença foi atingida por uma grave enchente, causada pelo transbordamento do rio Arno após uma longa série de chuvas nos dias anteriores. Muitas áreas da cidade, incluindo o centro histórico, foram inundadas pelas águas do rio  que em alguns pontos superou os cinco metros de altura. Em vários pontos de Florença em alguns edifícios marcam o ponto atingido pelas águas, especialmente na Piazza Santa Croce.

Ponte Santa Trinità, Florença 1966

A inundação atingiu, além de Florença, grande parte da Toscana, e causou um total de 35 mortes. O número de mortos foi divulgado apenas em 2006, após anos de estimativas exageradas: 17 pessoas morreram em Florença e 18 em outras partes da Toscana.

O número de vitimas na enchente de 1966 poderia ter sido muito maior se tivesse sido num outro dia: o dia 4 de novembro é de fato a festa das forças armadas e da unidade nacional, e foi considerado feriado até 1976, por esse motivo a maioria das pessoas se encontravam em casa, ao invés de estarem no trabalho ou na rua.

As enchentes no norte da Itália

O norte da Itália também foi atingido por várias inundações no mesmo dia, e em particular em Trentino-Alto Ádige, Vêneto e na parte oriental da Lombardia:  no Triveneto, como é indicada a região nordeste que foi atingida pelas chuvas, a enchente é menos lembrada do que a de Florença, mas também causou dezenas de mortes.

Nos últimos dias de outubro e nos primeiros dias de novembro de 1966, diferentes áreas da Itália foram afetadas por chuvas fortes e contínuas que causaram o aumento do nível de água de muitos rios, canais e córregos.

A situação na Toscana

Na Toscana, as precipitações foram particularmente intensas e os níveis do Arno e seus afluentes aumentaram: não era uma situação incomum, e até 3 de novembro a situação foi simplesmente mantida sob maior controle pelas autoridades locais, que já tinham advertido o Ministério do Interior.

A partir do final da tarde de quinta-feira, 3 de novembro, a situação começou a se deteriorar: as chuvas se tornaram cada vez mais intensas. O Arno continuou a encher e os córregos começaram a transbordar. Os primeiros problemas surgiram na província de Arezzo, perto da nascente do Arno, e no final da noite o rio Resco transbordou em Reggello, no sudeste de Florença: no desabamento de uma casa, sete pessoas morreram, incluindo um casal de aproximadamente trinta anos e suas duas filhas, de seis e nove anos.

A partir da meia-noite, as coisas começaram a piorar rapidamente: adegas, garagens de Florença e algumas ruas começaram a inundar. Na Autostrada del Sole houveram deslizamentos de terra e várias áreas ficaram isoladas no vale do Casentino, na província de Arezzo. A polícia, engenheiros e autoridades não sabiam ao certo como proceder, e a escuridão ajudou a complicar as avaliações: no final, decidiram não tocar os sinos em sinal de alarme para não causar o pânico entre os habitantes.

A primeira área da cidade inundada pelo afluente Mugnone foi o Parco delle Cascine, na margem direita do Arno e a noroeste do centro histórico: dezenas de cavalos do hipódromo e alguns animais do zoológico morreram. Entre as duas e as quatro da manhã, muitas fossas de esgoto explodiram devido à pressão excessiva, e o Arno, depois de transbordar na parte leste de Florença, começou a invadir o centro histórico, primeiro as ruas ao redor da igreja de Santa Croce, e depois do outro lado do rio, em todo Oltrarno.

Em Scandicci, uma cidade ao sul de Florença, e em Lastra a Signa, a oeste, as estradas inundaram devido às inundações do Arno e de outros córregos.

Ponte Vecchio, Florença

Nas primeiras horas da manhã, as áreas inundadas de Florença já eram muitas e a situação era igualmente grave nos municípios da cidade de San Mauro, a Signa, a Campi Bisenzio e em Montelupo Fiorentino. As margens do Arno começaram a ceder e a água começou a fluir mais intensamente em direção ao centro histórico de Florença: por volta das nove da manhã chegou à Piazza Duomo, enquanto nas ruas de outras áreas já alcançava três metros de altura.

Na “Murate”, prisão que ficava na área de Santa Croce, os habitantes prestaram ajuda aos presos, hospedando-os em casa (um deles, de 25 anos, morreu na inundação). Durante a manhã, outros diques foram destruídos e vários outros municípios da cidade foram inundados, incluindo Lecore e San Giorgio a Colonica. O município mais afetado, no entanto, foi Campi Bisenzio, onde a água ultrapassou os quatro metros de altura. Também houve inundações em Prato e Sesto Fiorentino, a noroeste de Florença.

A situação em Florença começou a melhorar somente à noite, mas os problemas foram transferidos para os outros municípios ao longo do Arno, de Empoli à província de Pisa. Muito mais ao sul, o rio Ombrone também inundou, inundando Grosseto e causando uma morte.

As vítimas da enchente

Em 2006, na ocasião do 40º aniversário da enchente, a associação “Firenze Promuove” divulgou a lista oficial das vítimas, que o então prefeito de Florença enviou ao Ministério do Interior em dezembro de 1966. A maioria das 17 vitimas de Florença, eram idosos deixados sozinhos em suas casas no dia da enchente, sendo que alguns deles eram deficientes físicos. Entre os mortos, havia também uma mulher de 48 anos e um operário do aqueduto de 53 anos, além de um detento de 25 anos.

Biblioteca Nazionale – Foto: Corrieri.it

Quase todos morreram porque foram pegos de surpresa pela enchente enquanto estavam em casa. De fato, a gravidade da inundação foi subestimada por muitos habitantes de Florença e da Toscana, que se deram conta somente quando já era tarde demais para se abrigarem nos andares superiores das casas.

Alguns também morreram por terem saído às ruas para ver como era a situação do Arno. Um homem de 80 anos morreu na explosão de um depósito de carboneto de cálcio de uma oficina de soldagem. Das 18 vítimas na província de Florença, uma era de Campi Bisenzio, quatro de Castelfiorentino, duas de Empoli, duas de Montelupo Fiorentino, sete de Reggello, duas de Sesto Fiorentino.

Depoimentos

Entre os depoimentos mais famosos, temos o do jornalista Marcello Giannini, que em coligação com o noticiário nacional fez com que se ouvisse o barulho da água fluindo pelas ruas de Florença, dizia: «Se eu abrir a janela, apenas para que tenham uma noção do que está acontecendo bem abaixo de nós, se pode ouvir o barulho. (…) não é um rio, mas sim é a Via Cerretani, a Via Panzani, é o coração de Florença invadido pela água “.

O maestro Franco Zeffirelli, um florentino apaixonado pela sua cidade, fez um documentário sobre a enchente, denominado “Per Firenze”, com as imagens da destruição, a narração de Richard Burton e as músicas de Roman Vlad, que ajudou muito a difundir a triste situação da cidade e estimular os voluntários a virem ajudar na recuperação do patrimônio histórico.

Os anjos do barro

Nos dias que se seguiram, os socorristas chegaram de diferentes áreas da Itália e também do exterior (em particular da União Soviética). Ted Kennedy, irmão de John Fitzgerald e Robert e então senador dos EUA, fez um apelo em rede nacional pedindo ajuda à Florença.

Muitos voluntários ajudaram a recuperar e a transportar as obras de arte cobertas de lama que se encontravam nos armazéns do museu dos Uffizi, que haviam sido inundados. Eram jovens que vieram de várias partes do mundo e foram chamados de “Angeli del fango”, os anjos do barro.

Os danos mais e graves, no que diz respeito ao patrimônio cultural de Florença, além dos já citados anteriormente, foram na Biblioteca Central Nacional, na Piazza Cavalleggeri, entre a igreja de Santa Croce e o Arno. Os depósitos foram inundados e, embora parte dos livros, manuscritos e documentos tenham sido posteriormente recuperados com as restaurações, muitos foram destruídos ou irreparavelmente arruinados pela lama.

A reconstrução e restauração em Florença continuou por muitos anos. Imediatamente após a inundação, foi criada a Comissão Interministerial para o Estudo do Sistema Hidráulico e Defesa do Solo, que em 1974 publicou um longo relatório sobre as condições hidrológicas do território italiano, propondo soluções para áreas em risco de inundação. A falta de preparação das autoridades locais para administrar a enchente em 1966 e a dificuldade de comunicação oficial com a população contribuíram para acelerar o processo que levou, em 1970, à racionalização do serviço nacional de proteção civil. Foram criados números como o do comissário de emergência, o departamento passou do Ministério de Obras Públicas para aquele do Interior e foi criado um sistema para treinar voluntários civis para lidar com situações de emergência.

No cinema a inundação de Florença foi contada em uma cena famosa de “Amici Miei – Ato II “(1982) e na mini-série transformada em filme “A melhor juventude” de Marco Tullio Giordana, recém lançado no Brasil.

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Cristiane de Oliveira
Cristiane de Oliveira

Carioca de nascimento e florentina por paixão. é curiosa, blogueira e guia de turismo. Apaixonada e especialista em vinhos, é sommelier deste de 2014.

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