Tour na Toscana

O Cosmo Mágico de Leonardo

 Este é o titulo da mostra que atualmente está em cartaz na Galleria degli Uffizi em Florença e que tem como tema central a obra-prima de Leonardo da Vinci: “Adoração dos Magos”, restaurada pelo Opificio delle Pietre Dure – importante centro de restauro situado em Florença – e restituída ao museu em março deste ano depois de mais de 5 anos de trabalho dos melhores profissionais da Itália.

O quadro foi realizado por Leonardo entre os anos de 1480 e 1481 para a ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho de São Donato a Scopeto – igreja que se localizava na zona de Porta Romana e destruída durante o assédio a Florença em 1529 – e não chegou a ser terminado pelo artista pois em 1481 recebeu um convite do Senhor de Milão Ludovico Sforza, também chamado o Mouro, para trabalhar para a sua corte.

Durante muitos anos foi considerada uma obra misteriosa e enigmática pois além de inacabada, sua interpretação era muito complexa, dificultada sobretudo pelo acúmulo durante mais de cinco séculos de camadas de sujeira e fuligem que escureciam a superfície e não permitiam uma leitura adequada.

A Restauração e a conservação

O projeto de restauração iniciou com uma fase de pesquisa e análises científicas para diagnosticar o estado físico e os problemas de conservação do quadro. Em paralelo foram realizados estudos históricos sobre o artista, tema e técnicas artísticas utilizadas no passado.

Os dois problemas principais no caso desta obra-prima eram a grande alteração da película pictórica e os problemas estruturais do suporte de madeira que já estavam afetando a superfície.

Imagem 2 – Adoração antes da restauração

Imagem 2 – Adoração antes da restauração

 

A limpeza e tratamento realizados com o objetivo de restaurar e conservar a obra-prima proporcionaram além da recuperação dos materiais originais, uma melhor leitura da obra e maior conhecimento do processo criativo de Leonardo, favorecendo uma releitura deste extraordinário quadro.

Na prática, como ficou evidente após o restauro, Leonardo usou a superfície como um bloco de rascunho sobre o qual estudou formas e posições e principalmente expressões.

O Tema

A Adoração dos Magos, Epifania ou Dia de Reis é uma passagem bíblica na qual os três Reis Magos seguindo a estrela de Belém chegam ao Menino Jesus e o adoram como Rei dos Judeus, presenteando-o com ouro, incenso e mirra. No calendário cristão a data é comemorada no dia 6 de janeiro. Este tema foi utilizado desde os primórdios da religião cristã, já nas catacumbas era representada esta festa, considerada a festa de todos os povos pagãos.

Imagem 3 – Adoração dos Magos Sandro Botticelli, 1474, Florença, Uffizi

Imagem 3 – Adoração dos Magos Sandro Botticelli, 1474, Florença, Uffizi

Imagem 4 – Adoração doa Magos de Filippino Lippi, 1496, Florença, Uffizi

Imagem 4 – Adoração doa Magos de Filippino Lippi, 1496, Florença, Uffizi

Em Florença no XV século houve um renovado interesse por este tema e além de Leonardo, Botticelli em 1474 e Filippino Lippi em 1496 pintaram a Adoração dos Magos. No caso de Filippino seu quadro foi encomendado para ser colocado no lugar do quadro inacabado de Leonardo na igreja de São Donato a Scopeto. As três obras-primas do Renascimento podem ser vistas na Galleria degli Uffizi.

Imagem 5 – Adoração dos Magos de Leonardo restaurada

Imagem 5 – Adoração dos Magos de Leonardo restaurada

O mágico Universo de Leonardo

No quadro de Leonardo vemos em primeiro plano ao centro a Nossa Senhora com o Menino Jesus no colo rodeados pelos três reis e por várias figuras formando um semicírculo. Mas o artista não se limitou a representar a cortejo dos reis, se olharmos com atenção o segundo plano veremos duas outras cenas: à esquerda um edifício e à direita uma batalha com cavalos e homens em grande movimento. Analisando o segundo plano temos realmente algo inédito na arte florentina daquele tempo, com personagens representados em poses contorcidas e rostos que mais parecem caricaturas, tudo colocado em uma complexa organização espacial: era realmente uma novidade estarrecedora na Florença Renascentista da segunda metade do século XV.

Imagem 6 – Detalhe

Imagem 6 – Detalhe

Mas o gênio Leonardo foi muito além inovando não somente na forma mas sobretudo no conteúdo, quando realmente a restauração se revelou essencial para a leitura iconológica. Para entender a importância das cenas representadas em segundo plano, é preciso recorrer aos desenhos realizados por Leonardo para a preparação da Adoração, desenhos estes que se encontram no Museu do Louvre e na Galleria degli Uffizi.

Imagem 7 - desenho preparatório de Leonardo para a Adoração dos Magos, 1481, Florença, Uffizi

Imagem 7 – desenho preparatório de Leonardo para a Adoração dos Magos, 1481, Florença, Uffizi

 

Imagem 8 - desenho preparatório de Leonardo para a Adoração dos Magos, 1481, Paris, Musée du Louvre

Imagem 8 – desenho preparatório de Leonardo para a Adoração dos Magos, 1481, Paris, Musée du Louvre

Podemos observar que o grande edifício com duas escadarias paralelas são o elemento comum em todas as três representações e, portanto, deduzir que fosse este o elemento mais importante que Leonardo queria nos fazer notar (esta construção poderia ser a reprodução do presbitério da igreja românica de São Miniato a Monte ou mesmo da própria igreja de São Donato a Scopeto). Mas este edifício, descobriu-se com os estudos mais recentes após a restauração, não é apenas uma ruina, mas sim um templo em construção ou melhor sendo reconstruído. Se observarmos as figuras entorno à escada veremos um grupo com um projeto na mão e outros personagens que estão trabalhando, ou seja o edifício que estava em ruina inicia a ser reconstruído.

Em poucas palavras, com o nascimento do Salvador todos os povos foram chamados para se reunir em um lugar santo (Epifania) e, como contado nas profecias de Isaias, as guerras e a destruição deram lugar à paz e à reconstrução, invocando a ideia do Filho de Deus que vem ao mundo para estabelecer a Nova Aliança.

Outras mensagens são passadas através de imagens cheias de significado como as duas árvores sobre a cabeça de Jesus – uma palmeira e um louro – elas dividem o espaço temporal em antes e depois da chegada do Salvador (reconstrução do templo/paz e batalha/guerra). A palmeira simboliza o martírio que Cristo deverá enfrentar, e o pequeno arbusto de louro com grandes raízes seria o próprio Cristo, visto como a semente que brotará e salvará a humanidade, por isso árvore é venerada por um anjo que segura suas raízes com a mão esquerda e com a direita indica Deus.

Imagem 9 – detalhe

Imagem 9 – detalhe

O profeta Isaias, que escreveu os textos que teriam inspirado Leonardo, seria representado no personagem em pé do lado esquerdo que não olha diretamente para o Menino Jesus, mas está absorvido nos próprios pensamentos que chegam diretamente no seu coração, ou seja, representado como o homem que não vê, mas prevê.

Um pouco sobre Leonardo

Leonardo di ser Piero nasceu na comuna de Vinci em 1452, e era filho ilegítimo de um Notário. Em 1469 se transfere para Florença. Era um homem impaciente e eclético: artista, engenheiro, cientista, inventor que se definia “Homem sem letras” pois não sabia grego e latim, línguas conhecidas pelos grandes estudiosos do seu tempo. Ele acreditava que a experiência era a base de todas as certezas e tinha uma visão extremamente cientifica e meticulosa da realidade. Estudou profundamente a anatomia humana e dos animais, além da botânica e da ótica.

Entre 1481 e 1499 trabalhou para a corte de Ludovico Sforza, senhor de Milão, para quem havia enviado um curriculum oferecendo-se como “hábil artista e homem para poder utilizar em tempos de paz e de guerra”. De volta a Florença no início de 1500 trabalhou para o governo Republicano desenhando a sua famosa Batalha de Anghiari. Após outras passagens por Milão foi chamado em 1516 pelo Rei da França Francisco I, e passou seus últimos anos a serviço da corte francesa morrendo em 1519 em Amboise.

Na pintura introduziu a perspectiva aérea e a técnica do esfumado – passagem gradual de cor sem um contorno marcado. Segundo ele a pintura era a arte por excelência, ideia esta que causou a divergência entre ele e Michelangelo, que considerava a escultura como arte maior.

Segundo Giorgio Vasari, pintor, arquiteto e crítico de arte do século XVI, que já mencionamos no post sobre os desenhos de Michelangelo, foi Leonardo a iniciar a Terceira Maneira ou seja a maneira Moderna pois seria ele o primeiro artista a dar movimento e respiro às figuras, melhor dizendo pela primeira vez na história da arte um artista representava a natureza de forma realista.

 

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