Tour na Toscana

TUTTOMONDO: um mural de Keith Haring em Pisa

tuttomondo

Neste momento no Brasil, especialmente em São Paulo, há um grande debate em torno do grafite como forma de representação artística, após a cobertura de vários murais com tinta cinza em nome do programa “Cidade Linda”.

Neste artigo vocês podem ler um debate sobre esta medida analisada por 3 pontos de vista diferentes.

Quando pensamos na Itália, especialmente na Toscana, nunca associamos a imagem de grafites, mas, para a surpresa geral, a última obra de Keith Haring encontra-se em Pisa, a cinco minutos da estação de trem Pisa Centrale.

Este artista norte-americano que nasceu na Pensilvânia em 1958, foi uma das vítimas ilustres da Aids no início dos anos 90 em Nova Iorque. É considerado um dos artistas mais importantes do grafitismo metropolitano, juntamente com Jean Michel Basquiat, um dos seus melhores amigos.

keith-haring

Haring desde menino demonstrou ter muito talento com o desenho e foi encorajado pelo pai que desenhava estórias em quadrinhos. Mais tarde, na onda da cultura hippie, ele girou os Estados Unidos de carona, entrando em contato com muitos artistas.

A sua fama emerge nos anos 80, com desenhos nos espaços vazios dos cartazes publicitários no metrô de Nova Iorque. Os chamados “Subway drawings” atraem a atenção de pessoas influentes no meio artístico.

A primeira mostra pessoal de Haring foi em 1982 e teve tanto sucesso que nos anos seguintes houveram mostras em vários países do mundo.

Haring participa da criação desta uma nova linguagem figurativa urbana, a chamada contra-cultura de rua ou “Street Art”.

keith-haring-art

Seus personagens são estilizados e bidimensionais, as figuras evocam desenhos infantis ou tribais. Nota-se a grande influência das estórias em quadrinhos na sua obra no traço preto grosso e contínuo e na publicidade pelo uso das cores fortes e brilhantes. Mas Haring era um ativista político e na maioria das vezes estas figuras coloridas e alegres veiculam mensagens contra a injustiça social, o racismo, o apartheid, a exploração econômica, etc…

Mesmo sendo conhecido pelos imensos murais, Haring utilizou outros suportes como telas, roupas, carrocerias de carros, plástico reciclado e muitos outros, para exprimir a sua arte e para que ela se tornasse acessível a todos e não somente a elite dos colecionadores de arte.

Em 1988 em uma entrevista para a revista Rolling Stones, o artista declara ser portador de Aids, mas continua a trabalhar enquanto a sua saúde o permite.

tuttomondo1

O último mural de Haring foi feito em 1989, se encontra na parede externa do convento de Santo Antônio, em Pisa. O autor afirmou ser a principal obra da sua vida, e, de fato, é um testamento artístico onde ele declara um hino a vida.

Tudo começou com um estudante pisano que ficou amigo de Haring em Nova Iorque e o convidou para vir conhecer a sua cidade. As autoridades do governo municipal de Pisa pediram para que Haring fizesse uma obra, e assim nasceu este mural.

Foi escolhida uma enorme parede de 180 metros quadrados e, para que durasse no tempo, foi utilizada a pintura acrílica, ao invés da mural. Foi o único mural que o artista elaborou para ser uma obra permanente, não efêmera, e que foi denominado “Tuttomondo“, uma coisa rara para um grafite de rua.

Keith não fazia esboços ou desenhos preparatórios e levou uma semana para desenhar o contorno das figuras, não um dia como costumava fazer. Era um happening onde Keith pintava enquanto o estéreo tocava música hip-hop com um volume altíssimo.

Mas foi também uma obra coletiva, pois as figuras foram coloridas pelos estudantes do Instituto de Arte de Pisa com a ajuda dos operários da empresa que forneceu as tintas. As cores são um pouco mais tênues que nas demais obras de Haring para criar uma maior harmonia com as cores das construções pisanas.pisa_keith

O tema é a paz e a harmonia universal e são representadas trinta figuras ligadas uma nas outras, como em um quebra-cabeça. Entre as figuras se destacam a tesoura humanizada que representa a colaboração entre os homens que tenta cortar a serpente, eterno símbolo do mal, que, por sua vez tenta comer a figura que está ao lado. A maternidade está representada na mulher com o bebê nos braços, uma crítica a influência da mídia com a pessoa com a cabeça como uma tv e o equilíbrio entre o homem e a natureza está representado na figura na qual um golfinho se apoia. A figura amarela que parece correr é colocada na altura dos transeuntes, como um convite para entrar na obra.

 

Ao retornar a Nova Iorque, antes de falecer o artista criou a Keith Haring Foundation com o objetivo a ajudar as associações a favor das crianças e pela luta contra a Aids, que é muito ativa ainda hoje.

Bem, agora vocês já sabem que em Pisa, além da famosa torre e da Praça dos Milagres, não se pode deixar de ver Tuttomondo, uma obra fundamental para a arte contemporânea.

texto: Kátia Martinez

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza cookies Saiba mais Mais informações

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close