Tour na Toscana

Mostra: Ligados pelo cinto de Maria

Uma bela mostra sobre a relíquia do cinto sagrado da Nossa Senhora em Prato – Legati da una cintola.

Mostra Legati da una Cintola, em cartaz no Palazzo Pretorio de Prato até o dia 14 de janeiro de 2018

Mostra Legati da una Cintola, em cartaz no Palazzo Pretorio de Prato até o dia 14 de janeiro de 2018

 

Na época medieval, as principais cidades toscanas travavam guerras frequentes que não se limitavam aos campos de batalha para a conquista de novos territórios, mas sobretudo para obter a supremacia política e econômica na região.

Apesar das divergências, existia um elemento comum que as unia, o culto Mariano. Ambas as catedrais de Pisa e Siena são dedicadas a Santa Maria Assunta. A antiga catedral de Florença era intitulada a Santa Reparata, uma mártir do início do cristianismo. Quando os florentinos decidiram construir a sua nova catedral, ela foi dedicada a Santa Maria del Fiore, sendo que a flôr não era somente o símbolo de Maria, mas também um símbolo cívico da cidade, a flôr de lis. Uma excessão era Pistóia, onde a catedral estava intitulada a San Zeno, e a sua diocese se estendia até Prato.

Os habitantes de Prato, que fica entre Pistóia e Florença, sempre desejaram tornar-se autônomos das suas potentes cidades vizinhas, do ponto de vista religioso e político. O grande vanto de Prato era possuir a relíquia mais preciosa relativa a Virgem Maria, o cinto sagrado. Este objeto tornou-se um elemento fundamental para a sua identidade religiosa, cívica e artística e é o tema da mostra “Legati da una cintola – L’Assunta di Bernardo Daddi e l’identità di una città“, ou seja “Ligados por um cinto” no Museo di Palazzo Pretorio e no Duomo.

Bernardo Daddi. Assunção, 1337-8.

Bernardo Daddi. Assunção, 1337-8.


A história do culto ao cinto sagrado combina elementos lendários com a religiosidade, a arte e a tradição. Um texto apócrifo do sécolo V e VI descrevia como a Nossa Senhora, no momento da assunção, entregou o seu cinto a São Tomé.

Daddi. Histórias do cinto. São Tomé mostra o cinto de Maria aos apóstolos ao redor do sepulcro

Bernardo Daddi. Histórias do cinto. São Tomé mostra o cinto de Maria aos apóstolos ao redor do sepulcro

Em 1141 o cinto milagroso foi levado à Prato, como dote de casamento que o mercante Michele Dagomari recebeu de Maria, uma descendente de um sacerdote de Jerusalém.

Noivado de Michele e Maria, descendente do sacerdote de Jerusalém e entrega da cestinha de vime com o cinto de Maria como dote de casamento

Noivado de Michele e Maria, descendente do sacerdote de Jerusalém e entrega da cestinha de vime com o cinto de Maria como dote de casamento

Este sacerdote, por sua vez, tinha recebido a relíquia das mãos do próprio São Tomé.

Predella Bernardo Daddi. São Tomé acompanhado por outros apóstolos entrega o cinto ao sacerdote de Jerusalém

Bernardo Daddi. São Tomé acompanhado por outros apóstolos entrega o cinto ao sacerdote de Jerusalém

Após a longa viagem de Jerusalém a Prato, para tomar conta da relíquia Michele dormia sobre o baú que a continha, e de noite os anjos vinham tirar ele de cima, pois não se pode ficar sobre uma relíquia. Somente no seu leito de morte, Michele revelou o segredo e doou o cinto ao religioso Uberto, da igreja de Santo Stefano.

Retorno a Prato, Michele dorme sobre o baú com a relíquia e doação do cinto ao religioso Uberto

Retorno a Prato, Michele dorme sobre o baú com a relíquia e doação do cinto ao religioso Uberto

Trata-se de uma faixa de lã finissima verde claro, bordada com fios de ouro. O interessante é que foi a produção de lã que tornou Prato em um importante centro textil desde a época medieval até os dias de hoje.

Imagem da relíquia do cinto publicada no site Coopcultura

Imagem da relíquia do cinto publicada no site Coopcultura

Para os prateses, o fato que a relíquia tivesse chegado até a cidade significava que tinha sido por direta intervenção divina da Virgem Maria, que a havia escolhido.

Para celebrar e difundir a notícia da presença de uma relíquia tão especial foi comissionada uma escultura ao Maestro di Cabestany. Este pioneiro da arte românica, ativo entre a Catalunha e a Toscana, representou ao lado esquerdo a assunção da alma, levada por Cristo, e do lado direito a assunção do corpo dentro de uma amêndoa (símbolo de uma auréola e de um trono) com os anjos, e na parte central a Virgem chega na glória de Deus e São Tomé exibe o cinto sagrado recebido.

Maestro di Cabestany, 1160 ca. Morte, glorificação e assunção da Virgem Maria com São Tomé que mostra o cinto.

Maestro di Cabestany, 1160 ca. Morte, glorificação e assunção da Virgem Maria com São Tomé que mostra o cinto.

A partir de então a representação da Assunção da Virgem Maria e da doação do cinto foi feita por muitos artistas ao longo dos séculos. Infelizmente algumas pinturas, como a de Bernardo Daddi, foram desmembradas e se encontram em diferentes museus, mas esta mostra é a possibilidade de ver reunidas algumas das obras mais importantes com este tema.

Niccolò di Cecco del Mercia. Assunção da Virgem Maria e doação do cinto a São Tomé. 1359-60

Niccolò di Cecco del Mercia. Assunção da Virgem Maria e doação do cinto a São Tomé. 1359-60

Com o ingresso da mostra é possível extraordinariamente visitar a Capela do Cinto, na Catedral de Prato, que normalmente não é aberta a visitação.

Capela do cinto de Maria. Catedral de Santo Stefano, Prato

Capela do cinto de Maria. Catedral de Santo Stefano, Prato

A relíquia não pode ser vista, pois fica guardada em um cofre embaixo do altar da capela, e para abrir são necessárias três chaves, duas que ficam com o bispo e a outra com o prefeito da cidade.

Altar da capela do cinto de Maria. Catedral de Santo Stefano em Prato

Altar da capela do cinto de Maria. Catedral de Santo Stefano em Prato

A devoção ao cinto sempre foi muito importante pois representa uma ligação profunda dos prateses com a Virgem Maria. Inicialmente a relíquia ficava em um altar próximo ao altar maior. mas a afluência dos peregrinos foi tão intensa que tornaram-se necessárias mudanças, decididas pelas autoridades municipais e religiosas. Ampliou-se a praça com várias demolições, foi construída a Capela do cinto para tornar-la mais segura pois houve um tentativo de roubo da parte de um pistoiese em 1312 e mais tarde foi construido o belissimo púlpito por Michelozzo e Donatello, para a exposição da relíquia.

O púlpito de Donatello e Michelozzo para a exibição da sagrada relíquia do cinto da Virgem. Catedral de Santo Stefano - Prato

O púlpito de Donatello e Michelozzo para a exibição da sagrada relíquia do cinto da Virgem. Catedral de Santo Stefano – Prato

A cinta é mostrada aos fiéis cinco vezes por ano: no Natal, na Páscoa, no dia 1 de maio, 15 de agosto e 8 de setembro. Nesta última ocasião é possivel ver o cortejo histórico que percorre as ruas da cidade, simbolizando os valores laicos e religiosos de Prato. Ou seja, realmente a história e a tradição de Prato é ligada por uma cintura.

 

Info:

Mostra: Legati da una Cintola

Aberta todos os dias, das 10:30 as 18:30 até o dia 14 de janeiro de 2018.

texto e fotos: Kátia Martinez

 

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