Tour na Toscana

Plautilla Nelli: a primeira pintora da Renascença

Santa Catarina por Plautilla Nelli

Vocês já ouviram falar de Plautilla Nelli? Não? Podem ficar tranquilos, pois esta lacuna existe por pura falta de informação, pois se trata de uma das “mulheres invisíveis”, cujo legado artístico foi sempre ofuscado pelos grandes contemporâneos da época como Michelangelo, Rafael ou Leonardo da Vinci.

Uma grande parte de obras de arte de artistas mulheres, conservadas em Florença, foram esquecidas nos depósitos dos museus. Nos últimos anos esta situação começou a mudar graças à ação da americana Jane Fortune e da organização no-profit fundada por ela: a Advancing Women Artists Foundation (AWA).

O objetivo é o resgate histórico da produção artística das mulheres, redescobrindo, restaurando e, valorizando muitas obras. Este trabalho é descrito no um livro e no documentário “Invisible Women: Forgotten Artists of Florence”, que ganhou um prêmio Emmy.

Vamos conhecer um pouco desta mulher invisível: Plautilla Nelli, a primeira pintora da Renascença.

Nascida em Florença, em 29 de janeiro de 1524, Polissena Margherita Nelli ficou órfã de mãe quando tinha apenas seis anos. Seguindo o exemplo de uma irmã mais velha, aos 14 anos entrou para o convento dominicano de Santa Caterina di Cafaggio que se localizava na Piazza San Marco em Florença e recebeu o nome de Plautilla.

Plautilla passou praticamente toda a sua vida neste convento, que infelizmente hoje não existe mais, e tinha certamente um caráter determinado, pois, além de ter sido madre superiora por três vezes, tornou-se também uma pintora, um ofício até então de predomínio exclusivamente masculino.

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Esta artista pioneira foi muito influenciada pela espiritualidade do frade dominicano Girolamo Savonarola, e pela sua concepção da arte como um elemento fundamental da religiosidade. Segundo Giorgio Vasari, Plautilla teria recebido muitos desenhos do atelier de dois outros religiosos e artistas da ordem: Fra Bartolomeo e Fra Paolino.

A freira dominicana é uma das poucas mulheres presentes no livro de Vasari sobre a vida dos artistas, embora não forneça muitos detalhes sobre a sua formação como pintora, além do fato que não foi igual ao dos outros homens que exerceram este ofício.

A formação dos artistas normalmente ocorria no atelier de um mestre, o que seria impossível para Plautilla, tanto pelo fato de ser mulher, como por ser uma freira. Provavelmente ela iniciou com o desenho e a cópia de outras obras e foi aos poucos se especializando com resultados excelentes:

«Suor Plautilla, monaca, et oggi priora […] la quale cominciando a poco a poco a disegnare et ad imitar coi colori quadri e pitture di maestri eccellenti… ha fatto maravigliare gl’artefici»

Plautilla criou o seu próprio atelier no convento e as outras freiras tornaram-se modelos e aprendizes. Desta maneira, mesmo quando retrata personagens masculinos tem sempre um toque de delicadeza a mais que os demais pintores. Muitas vezes as figuras femininas demonstram uma comoção intensa, com lágrimas que revelam a profundidade do sentimento.

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Normalmente as obras da freira pintora podem ser vistas no Museu de San Marco e no Cenáculo de San Salvi. Mas este é um período muito importante para a redescoberta de Plautilla Nelli, com muitos eventos, como a mostra dedicada esta pintora no Uffizi, iniciada no dia 8 de março, dia internacional das mulheres, com algumas pinturas, gravuras e desenhos realizados por ela.

Mas a iniciativa de importância fundamental para a resgate do legado histórico da primeira pintora é o restauro da obra-prima de Plautilla, a Última Ceia. Já falamos anteriormente da importância do tema da última ceia para os artistas florentinos, é uma tradição dos cenáculos da cidade.

Neste caso a obra é Plautilla é singular: é a primeira e única Última Ceia pintada por uma mulher, e a tela tem mais de 7 metros de largura. No decorrer dos séculos esta obra tinha sido deteriorada e muito retocada.

ultima cena plautilla

A AWA lançou uma importante campanha de financiamento coletivo, um crowfunding a nível internacional, para financiar o restauro desta obra magnifica da primeira pintora da Renascença. O Tour na Toscana teve o privilégio de participar na apresentação do projeto, com o criativo nome TheFirstLast.

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A restauradora comentou que, aparentemente, o quadro parece em piores condições agora que antes do restauro. É porque a primeira etapa do restauro se concentra em limpar e retirar os retoques realizados ao longo dos séculos. Por exemplo, as barbas dos apóstolos tinham sido alongadas para dar um aspecto mais masculino aos personagens. Temos que imaginar que os seus modelos eram as outras freiras, o que explica esta delicadeza das nuances e dos rostos.

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O interessante é que este esforço está envolvendo outras atividades tradicionais de Florença. Foram criados alguns prêmios específicos para os grandes doadores. Entre eles destacam-se alguns que seguem tradições centenárias de trabalho artesanal de Florença, como a ourivesaria. Os artesãos da joalheria Nerdi, uma botega na Casa dell’Orafo, ao lado do Ponte Vecchio, que nos convidaram para a apresentação, realizaram um lindíssimo pingente com um pincel dobrado estilizado, como as mulheres artistas que tiveram que dobrar-se por séculos com uma sociedade que tentou sempre excluí-las das atividades artísticas.

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A outra é a perfumaria, um dos primatos florentinos. A tradição de perfumes permanece viva em Florença e uma das lojas mais lindas da cidade é a AquaFlor, pertinho de Santa Croce. O proprietário e “profumiere” Sileno Cheloni realiza perfumes sob medida e criou um perfume chamado “Invisible” inspirado a Plautilla e as muitas mulheres artistas que por séculos permaneceram invisíveis na história.

Plautilla faleceu aos 64 anos no convento onde passou praticamente toda a sua vida, mas finalmente agora, Florença está rendendo a homenagem que a primeira pintora da história merece para deixar de ser invisível.

texto: Katia Martinez

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