Tour na Toscana / Arte  / A história do Ospedale degli Innocenti
13 dez

A história do Ospedale degli Innocenti

Origem

O fenômeno do abandono de crianças difundido desde a antiguidade se intensifica na Itália dos séculos XIII e XIV, no momento de desenvolvimento geográfico. No século XV acolher crianças abandonadas se transforma numa atividade assistencial praticada por grandes hospitais urbanos, inicialmente destinados somente à cura de enfermos e peregrinos.

O Ospedale degli Innocenti de Florença (Hospital dos Inocentes) é uma instituição destinada a acolher e tutelar crianças abandonadas que tem origem no início do século XV, em 1419 quando a Arte da Seda com o projeto de Filippo Brunelleschi inicia sua construção na Praça Santíssima Annunziata.

Patio interno brunelleschiano

O Museu dos Inocentes nos conta através de suas obras de arte, de sua arquitetura e de sua memória documentada, uma identidade muito forte, que desde 1445, data da primeira bebê recém nascida recebida pelo Instituto e batizada Agata Smeralda, nunca mais parou de acolher crianças e ao longo dos séculos se afirmou como instituição laica e pública.

Na segunda metade do século XVI, Vincenzo Borghini, pároco do Instituto, erudito monge beneditino e mecenas, realiza um projeto educativo que prevê uma serie de atividades às crianças do instituto como o ensinamento do ábaco (antigo instrumento de cálculo utilizado para realizar operações matemáticas), da gramática, mas também da musica, pintura e escultura para as crianças do sexo masculino e a criação de um convento, coordenado por uma priora que encaminha as jovens a reza e ao trabalho.

 

Período da contrarreforma

Após a morte inesperada de Vincenzo Borghini em 1580, agravada certamente por um período econômico difícil para a instituição, o Ospedale degli Innocenti sofre algumas mudanças para sanar tais problemas e diminuir gastos, entre eles, a retirada de jovens acima de 19 anos e de mulheres acima dos 36 anos que irão trabalhar para famílias abastadas de Florença.

No início de 1600 o prior Marco Settimanni continua o projeto pedagógico iniciado por Vincenzo Borghini com um novo regulamento, onde os jovens devem tomar conta das crianças mais novas, devem trabalhar e mantém o instituto nos afazeres domésticos, devem aprender a doutrina Cristã.  As meninas aprendem a ler e escrever, a costurar e a tecer.

Neste período a comunidade feminina do Ospedale degli Innocenti é chamada para se adequar às novas regras disciplinares da contrarreforma católica. Não é um período fácil para estas mulheres, pois devem também se adaptar a um rigoroso horário de trabalho para manter as despesas de manutenção do instituto.

A “finestra ferrata” ou “ruota”

Na tarda Idade Média o abandono das crianças na Toscana era feito por meio de uma “pila” de pedra colocada na parte externa nos hospitais em um local protegido. No Ospedale deli Innocenti a pedra côncava era colocada debaixo do pórtico da loggia na parede que comunicava a igreja menor com a parte final do atual salão Brunelleschi.

Uma “pila” encaixada em uma pequena abertura com uma grade e um espaço suficiente para deixar passar o recém-nascido chamado “finestra ferrata” ou “ruota”, uma janela com uma grade de ferro. No século XVII esta janela será colocada ao lado norte do pórtico.

No início de 1700 os ministros do Ospedale degli Innocenti pedem ao grão duque da Toscana, entre outras modificações na estrutura do instituto, de reduzir o tamanho da “janela ferrada” com o intuito de impedir o abandono de crianças maiores no instituto.

Ainda assim este é um período que registra um aumento de crianças abandonadas: aproximadamente 500 por ano na primeira metade do século, até alcançar 1500 crianças no ano de 1767.

Os gastos são altíssimos neste período e a instituição encontra-se em grande dificuldade econômica.  Em 1770 com a abolição das Artes e com o fim do patronato da Seda, o Ospedale degli Innocenti inicia um período de transição.

O século XIX e a eliminação da “finestra ferrata”

Nos primeiros anos do século XIX será instituída a disciplina de pediatria graças ao professor Lorenzo Nannoni atuante no Ospedale degli Innocenti e em 1815 inaugura-se no instituto um departamento de maternidade para as parteiras mais pobres, dando inicio a uma escola de obstetrícia.

Após a unificação da Itália em 1861 torna-se necessário eliminar o problema do abandono anônimo de filhos legítimos às instituições assistenciais e assim serão abolidas as “finestre ferrate” ou “ruote” em varias cidades italianas inclusive em Florença (1875). Em 1888 o Instituto degli Innocenti passa a ser administrado pelo governo público.

O reconhecimento das crianças abandonadas

No museu encontram-se reunidos 140 “segni” do século XIX: assim chamados, partes de objetos deixados pelos pais que abandonavam as crianças com a esperança de um dia retonar para busca-los. Estes objetos teriam permitido o reconhecimento do próprio filho, e assim permaneciam durante toda a vida com estas crianças. São cordões, medalhas, moedas, anéis, santinhos, botões, pedaços de pano, mensagens escritas, enfim objetos variados que hoje se encontram expostos no museu.

Do século XX aos dias de hoje

O século XX foi internacionalmente muito importante no que diz respeito à salvaguarda das crianças.

Em 1989 a Assembleia General das Nações Unidas estabelece a convenção internacional pelos direitos da infância, adotado a partir de então em todo o mundo. A Itália ratifica a convenção em 1991.

O Instituto degli Innocenti em 1988 acolhe na sua própria sede a UNICEF IRC (Innocenti Research Center) atuando com ações de pesquisa e com a gestão da Biblioteca Innocenti Library  “Alfredo Carlo Moro”, especializada nos direitos de menores.

Nos anos 70 a grande estrutura do Instituto degli Innocenti é substituída por programas de gestão familiar onde serão recebidos temporariamente crianças e mães provenientes do território toscano, encaminhados aos serviços sociais e às autoridades judiciárias: a Casa Bambini, para crianças de zero a seis anos, a Casa Madri, para as mães com filhos e gestantes e a Casa delle Rondini para as mães no período final de um percurso de maior autonomia.

Fazem parte ainda do complexo, três creches e o um centro experimental que acolhe diariamente mais de 150 crianças desenvolvendo atividades recreativas, alem de laboratório com jogos e serviços educativos do museu.

O Instituto degli Innocenti hoje é uma instituição pública com funções sociais, educativas e culturais, desenvolvendo pesquisas, elaborando estatísticas, gerenciando bancos de dados e atividades de documentação e divulgação como suporte das políticas e ações para a infância, adolescência e famílias.

A recente inauguração do novo Museu degli Innocenti em 2016, após três anos de obras, mostra a missão da instituição de forte identidade histórica e sem interrupções ao longo dos séculos de suporte à infância e aos direitos das crianças.

Florença e Brasil

Um dos projetos engajados pelo Instituto é a criação da Onlus Agata Smeralda, que recebe o nome da primeira criança abandonada no Ospedali degli Innocenti em 1445. Em 1996 por iniciativa do Professor Mauro Barsi e do Cardeal Lucas Moreira Neves, após um acordo entre Florença e Salvador (Brasil) em 1991 será realizada a primeira adoção à distância. Atualmente o Projeto Agata Smeralda gerencia 150 projetos que tutelam a vida de menores e está presente em 15 países do mundo.

Fonte de consulta:

Il Museo degli Innocenti, a cura di Stefano Pilipponi, Eleonora Mazzocchi, Ludovica Sebregondi. Mandragora 2016, Firenze.

http://www.agatasmeralda.org/

https://www.istitutodeglinnocenti.it/

Luciana Masiero
Luciana Masiero

Mineira, arquiteta de formação e guia oficial é apaixonada pela cultura e costumes locais. Adora levar sua experiência em arquitetura e gastronomia aos tours.

No Comments

Leave a Reply:

Ao continuar a navegação, você aceitará a nossa política de Cookies Mais informações

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Fechar