Tour na Toscana

Os Desenhos de Michelangelo

Talvez soe estranho falar sobre os desenhos do grande artista pois estamos acostumados a ver imagens ligadas principalmente às suas esculturas. Na verdade, Michelangelo além de escultor, foi pintor, arquiteto e poeta. Um artista extremamente versátil.

No início de março, na ocasião do seu aniversário de nascimento, escrevemos sobre a sua vida e sua obra. Neste mês foi inaugurada uma mostra na Casa Buonarroti com 16 desenhos entre os mais importantes da sua longa carreira, uma ocasião rara, senão única, pois estes desenhos quando não estão viajando pelo mundo em alguma mostra ficam guardados no “caveau” do museu, protegidos em um ambiente sem luz e com parâmetros de umidade constantes, pois o papel é um suporte artístico muito sensível.

Tantas notícias sobre Michelangelo chegaram à nós através de Giorgio Vasari, pintor, arquiteto e escritor ligado à família Médici. Ele escreveu um livro em meados do século XVI sobre a vida e a obra dos maiores artistas que viveram entre o século XIII e XVI, e nele define Michelangelo como “O Divino”. Foi dele também a ideia de criar em 1563 a Academia das Artes e do Desenho com o intuito de honrar a arte através da própria arte, reconhecendo o Duque Cosimo I como príncipe e senhor de todos e proclamando Michelangelo, que morreu no ano seguinte, pai e mestre das três artes: arquitetura, pintura e escultura.

Pois bem, Vasari conta que Michelangelo queimou um grande número de desenhos pouco antes de morrer porque queria ser considerado perfeito e seus estudos no papel, acreditava ele, denegririam a sua imagem póstuma. Felizmente nem tudo foi queimado e alguns desenhos ainda restaram nos seus ateliers em Roma e em Florença, e outros importantíssimos nas mãos de amigos íntimos, que recebiam presentes em forma de desenhos, os chamados “presentation drawings”.

O Duque Cosimo I, senhor de Florença entre 1537 e 1574 e grande mecenas e colecionador de obras de arte, tinha uma grande admiração por Michelangelo e ficou profundamente magoado ao saber do triste fim dos desenhos queimados em Roma, o que considerou um ato pouco digno de um grande artista. Assim, Vasari aconselhou o sobrinho de Michelangelo, Leonardo Buonarroti, a doar ao poderoso Duque tudo o que o artista guardava no atelier florentino: desenhos e esculturas. A coleção dos Médici que já continha alguns desenhos do “Divino”, adquiridos no mercado na época a preços altíssimos, foi enriquecida com a doação de Leonardo.

Quando em 1620 Michelangelo o Jovem, filho de Leonardo, decidiu utilizar algumas salas da casa de família para realizar um museu dedicado ao famoso tio-avô, exatamente onde é hoje o Museu da Casa Buonarroti, o Grão-duque Cosimo II restituiu grande parte dos desenhos e uma importantíssima escultura realizada na adolescência do artista a “Madonna della Scala”.
Hoje, o Museu da Casa Buonarroti, possui a coleção de desenhos de Michelangelo mais importante do mundo, são mais de 200, além do arquivo Buonarroti com cartas, sonetos e outros manuscritos. Para quem não puder ver a mostra atual, pode encontrar expostos no Museu sempre 4 desenhos, que são trocados a cada mês. O patrimônio do museu conta além dos desenhos com um acervo de esculturas e modelos do artista, e com coleções angariadas pelos seus descendentes. A própria casa é ornada com afrescos e pinturas dos mais celebres artistas do sec. XVII que homenageiam e contam a história do mais celebre integrante da família.

Uma dica: para os grandes admiradores do artista propomos uma visita exclusiva para ver os desenhos da coleção conservados no Museu e um percurso pelas salas da Casa, uma verdadeira imersão na vida e na obra de Michelangelo.

Os 16 desenhos expostos na mostra, que pode ser vista até o dia 14 de maio, foram realizados entre 1504 e 1560, e representam 9 estudos de figuras, 5 esboços de arquitetura e 2 manuscritos, feitos a lápis, caneta e carvão. É interessante saber que o papel era aproveitado inteirinho, frente e verso, nem sempre só com desenhos, mas ás vezes também para listas de compras, bilhetes e contas.

Abaixo alguns dos desenhos expostos na mostra:

Nu de costas, 1504-05

Nu de costas, 1504-05

Estudo de uma figura central para a “Battaglia di Cascina”, afresco que deveria ter sido realizado por Michelangelo no salão dos “500” no Palazzo da Signoria (atual Palazzo Vecchio), mas do qual foi realizado somente o desenho preparatório, que é considerado um dos desenhos mais importantes da história da arte, copiado e estudado por quase todos os artistas da época, inclusive por Raffaello.

Madona com menino, 1525

Madona com menino, 1525

Maravilhoso desenho com algumas definições de efeito pictórico. Com gesto doce e olhar enigmático a Madona de Michelangelo parece saber qual será o destino do próprio filho, que se sacrificará pelo bem da humanidade. Genialidade do artista que consegue nos transmitir a sua forte espiritualidade através do amor materno.

Estudos para a cabeça de “Leda”, 1529

Estudos para a cabeça de “Leda”, 1529

Um dos desenhos mais bonitos da coleção, é um estudo para um quadro realizado para o duque de Ferrara, Alfonso I d’Este, que representava “Leda e o Cisne”, que infelizmente não mais existe. A cabeça inclinada nos faz lembrar a escultura da Noite na Sacristia Nova da Basílica de São Lourenço.

Base para os pilares da sacristia Nova com manuscritos, 1524

Base para os pilares da Sacristia Nova com manuscritos, 1524

A Sacristia Nova é um mausoléu da Família Médici, obra prima de Michelangelo, onde o artista se esmerou na arquitetura e na escultura e dedicou mais de 12 anos de sua vida. Sobre os túmulos dos duques da casa Médici Juliano e Lourenço, ele realizou as esculturas alegóricas do Dia e da Noite, Crepúsculo e Aurora.

Neste simples esboço as palavras se fundem à arquitetura e à escultura através de um pensamento denso e profundo, palavras de significado misterioso e emocionante que se tornam uma síntese das complexas razões humanas e artísticas, origem da própria Sacristia.
Apenas para compreender a profundidade do texto, escrito em dialeto fiorentino, segue uma tradução livre:

“O céu e a terra,
O Dia e a Noite se falam e dizem:

com nosso curso veloz conduzimos o Duque Juliano à morte,

então é justo que ele se vingue, como o faz,
e a sua vingança é esta: assim como nós o matamos, ele assim morto nos tirou a luz, e com os olhos fechados fechou os nossos também,
que não mais resplendem sobre a terra.
O que teria ele feito de nós enquanto vivia?”

Projeto para escadas, base de colunas e desenhos de figuras, 1524

Projeto para escadas, base de colunas e desenhos de figuras, 1524

Estudos realizados para a escada da biblioteca Laurenziana

 

Projeto para a igreja San Giovanni dei Fiorentini, 1559

Projeto para a igreja San Giovanni dei Fiorentini, 1559

Esta igreja que leva o nome do santo padroeiro da cidade de Florença e deveria ser erguida em nome da “Nação Florentina” em Roma, mas foi realizada com projeto de outro arquiteto após a morte de Michelangelo. Notar o altar central rodeado por 8 pilares duplos e 4 capelas radiais.

Autorretrato enquanto pinta o teto da capela Sistina com soneto, 1509

Autorretrato enquanto pinta o teto da Capela Sistina com soneto, 1509

Poema onde descreve, com notas de humor negro, as difíceis condições em que se encontra a trabalhar na Capela Sistina. Com um seu autorretrato que mostra a posição que ficava enquanto afrescava o teto.

4 comentários sobre “Os Desenhos de Michelangelo

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